2004/07/26

Investimento 

Recebi há dias a notícia de que uma proposta minha tinha sido seleccionada num Concurso de Ideias para criação de empresas promovido pela Agência de Inovação.

O importante neste projecto não é o apoio financeiro directo do Programa NEST. O seu montante potencial é muito pouco significativo face às necessidades reais de financiamento de um empreendimento deste tipo, especialmente atendendo à limitação de não ultrapassar a participação do próprio promotor no capital da empresa. Importante é a eventual capacidade de o NEST "abrir portas" junto de potenciais investidores, de aumentar a credibilidade do projecto.

Mantenho o cepticismo de quem tem assistido ao desenrolar inconsequente de muitos programas de apoio estatais e de quem não tem conseguido encontrar em Portugal interlocutores adequados a diversas ideias de negócio em diferentes áreas. Quando se tenta juntar ética, prudência nas previsões de negócio, decência no tratamento dos recursos humanos e cumprimento da Lei, o resultado tem sido desanimador. Considero por isso como prioritário o envolvimento de parceiros estrangeiros, seja como investidores de capital de risco, seja no âmbito de uma colaboração tecnológica.

É evidente que não há nenhum "defeito genético" nos portugueses que os impeça de agir com dinamismo e competência. Contudo, é difícil ultrapassar isoladamente uma cultura de imobilismo ou irresponsabilidade, normalmente fruto apenas de inconsciência e não de má fé. A solução passará por aprender com quem sabe, com quem já tem tido sucesso, com quem é rápido a decidir e competente a agir. Escrevi há tempos um artigo sobre este assunto cuja versão oral apresentei na sessão presidida por Miguel Cadilhe sobre "Economia e Sociedade" no Encontro "Porto Cidade Região".

Os "investidores de risco" em Portugal têm quase sempre pavor de perder o seu dinheiro. É um paradoxo: não querer arriscar mesmo quando os projectos supostamente são de risco!
Ou o capital que pretendem investir lhes "faz realmente falta" e portanto assumir um risco elevado não é compatível com as suas disponibilidades. Ou não aceitam o facto de que muitos negócios terão que falhar para que apenas alguns tenham sucesso (com lucros que compensem largamente todas as outras perdas).

Existe capital. Contudo, quem o possui provavelmente não encontra interlocutores/parceiros em quem confie. Por outro lado há pessoas com boas ideias e competência técnica, mas sem capital de suporte ao investimento - são elas, apesar de tudo, os empreendedores de que Portugal precisa. Será que se consegue reunir investidores com alguma liquidez e empreendedores sem capital?

Um "business plan" não é uma receita milagrosa que garante lucros, é apenas uma base para o lançamento do negócio. O importante é responsabilizar o promotor pelos recursos que lhe são confiados, avaliando as suas características pessoais mais até do que os projectos em si. Os projectos deverão ajustar-se às circunstâncias concretas que o futuro reserva: o enquadramento altera-se, a estratégia tem de se adaptar ao longo do tempo e em função dos resultados obtidos, a concorrência pode aparecer com maior ou menor agressividade. Tudo isto implica mudanças ao plano original (tantas vezes uma completa invenção sem qualquer base científica!), pelo que o verdadeiro valor é a competência do promotor. Ele deve prestar contas por aquilo que fez mais do que explicar com antecedência o que vai fazer. Defendo um sistema de "fiscalização sucessiva" para o controlo da actuação de quem gere algo que não é só seu.

Ao contrário do que costumam aconselhar alguns "especialistas", em Portugal não compensa criar uma empresa a menos que o volume de negócios seja bastante significativo. O problema não é a criação em si, que é um processo relativamente simples. O problema são os custos burocráticos de a manter (tempo perdido, contabilidade, seguros, licenças, etc.), que são enormes! As empresas já existentes têm capacidade de acomodar novos negócios, geridos autonomamente e complementares à sua actividade actual. Para isso podem estabelecer contratos menos burocráticos com os promotores de novas iniciativas, aproveitando a estrutura que já possuem.

Defendo também que um "business plan" deve ser preparado sempre que possível em conjunto com os investidores, e não isoladamente pelo promotor. Um trabalho em parceria permitirá compatibilizar interesses e fazer avançar muito mais rapidamente o negócio.

Procuro investidores!

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