2009/09/24
A cidade praça a praça
Ver a área urbana apenas à escala macro faz com que o território fique "sem dono"
Em tempo eleitoral, meditemos sobre os espaços públicos nas cidades e, em particular, as suas praças como pontos de centralidade local, de convívio e negócio. Ver a área urbana apenas à escala macro, desleixando a micro-gestão que afecta directamente os cidadãos na sua vivência diária, faz com que o território fique "sem dono" - é de todos mas não é de ninguém.
A cidade não é saudável se não for ocupada e bem tratada. Uma zona deserta nalgumas horas do dia é inevitavelmente tomada de assalto pela insegurança, o que vai causar ainda mais abandono num ciclo vicioso onde, sem grande resultado, se vão enterrando fortunas em limpeza e manutenção. É indispensável ter a atitude que já se provou resultar no metro do Porto: vigilância atenta e permanente, reparação imediata de danos - só assim se consegue manter uma qualidade digna no serviço ao cidadão, evitando uma degradação incontrolável.
Tratemos as praças segundo os mesmos princípios. Criem-se pequenas equipas polivalentes, em turnos de 8 horas com duas ou três pessoas, 24 horas por dia e todos os dias do ano, que assumam uma praça e algumas ruas adjacentes como "suas", sendo avaliadas pelos resultados que obtêm. Teriam a missão mista de vigilância, jardinagem, limpeza, reparação de mobiliário urbano e, dependendo das qualificações concretas das pessoas que a constituam, até de ajuda a idosos lá residentes em coordenação com a Segurança Social e as IPSS. Entregue-se a sua gestão e os meios correspondentes às juntas de freguesia, que passariam a combinar a actuação com os serviços da Câmara e a Polícia.
E dinheiro? Façam-se bem as contas, incluindo todos (mas mesmo todos) os custos. Quanto se gasta actualmente em equipamento destruído pouco tempo depois de ser instalado? Quanto em manutenção para disfarçar actos de vandalismo? Quanto custa a fuga de habitantes e empresas? Se somos pobres, é também porque não sabemos evitar o desperdício. Quanto vale, afinal, reabilitar uma cidade em comparação com um TGV, um aeroporto ou uma auto-estrada?
(publicado no JN de 2009/09/10)
Em tempo eleitoral, meditemos sobre os espaços públicos nas cidades e, em particular, as suas praças como pontos de centralidade local, de convívio e negócio. Ver a área urbana apenas à escala macro, desleixando a micro-gestão que afecta directamente os cidadãos na sua vivência diária, faz com que o território fique "sem dono" - é de todos mas não é de ninguém.
A cidade não é saudável se não for ocupada e bem tratada. Uma zona deserta nalgumas horas do dia é inevitavelmente tomada de assalto pela insegurança, o que vai causar ainda mais abandono num ciclo vicioso onde, sem grande resultado, se vão enterrando fortunas em limpeza e manutenção. É indispensável ter a atitude que já se provou resultar no metro do Porto: vigilância atenta e permanente, reparação imediata de danos - só assim se consegue manter uma qualidade digna no serviço ao cidadão, evitando uma degradação incontrolável.
Tratemos as praças segundo os mesmos princípios. Criem-se pequenas equipas polivalentes, em turnos de 8 horas com duas ou três pessoas, 24 horas por dia e todos os dias do ano, que assumam uma praça e algumas ruas adjacentes como "suas", sendo avaliadas pelos resultados que obtêm. Teriam a missão mista de vigilância, jardinagem, limpeza, reparação de mobiliário urbano e, dependendo das qualificações concretas das pessoas que a constituam, até de ajuda a idosos lá residentes em coordenação com a Segurança Social e as IPSS. Entregue-se a sua gestão e os meios correspondentes às juntas de freguesia, que passariam a combinar a actuação com os serviços da Câmara e a Polícia.
E dinheiro? Façam-se bem as contas, incluindo todos (mas mesmo todos) os custos. Quanto se gasta actualmente em equipamento destruído pouco tempo depois de ser instalado? Quanto em manutenção para disfarçar actos de vandalismo? Quanto custa a fuga de habitantes e empresas? Se somos pobres, é também porque não sabemos evitar o desperdício. Quanto vale, afinal, reabilitar uma cidade em comparação com um TGV, um aeroporto ou uma auto-estrada?
(publicado no JN de 2009/09/10)
Rodas a mais
Passei a ser cliente frequente dos transportes públicos e, principalmente, da bicicleta
Decidi abandonar o uso do automóvel dentro da cidade. Passei a ser cliente frequente dos transportes públicos e, principalmente, da bicicleta. Desde a adolescência que não percorria a cidade em duas rodas. Aos 43 anos, com as subidas e descidas do Porto, seria realista este meio de transporte para a vida normal e não apenas como desporto? É. Mas há algumas dificuldades.
É demasiado perigoso o convívio de bicicletas e automóveis na mesma via. Conhecendo os condutores portugueses, escolho ruas com pouco trânsito, subo para os passeios com o devido respeito pelos peões e prefiro horas de menor movimento, remediando assim a ausência de ciclovias. Há espalhados pela cidade inúmeros sinais de proibição de parar/estacionar mas parecem indicar zonas para aparcamento permanente. Exemplo entre muitos: Rua da Constituição. Ruas largas, que permitiriam facilmente a reserva de faixas para velocípedes, ficam congestionadas com trânsito normal.
Morando no centro, verifico que a cidade "encolheu": em poucos minutos consigo chegar a qualquer lado, com ou sem subidas (benditas mudanças!). As compras mais pesadas do supermercado agora são feitas online para entrega ao domicílio. Falta-me experimentar o tempo de chuva. Como as deslocações são habitualmente curtas, conjugando o metro com a bicicleta (para a qual as carruagens têm lugar previsto) desconfio que vou continuar nesta onda radical. O mais difícil será descobrir estacionamento adequado nos locais de destino, pois a Baixa do Porto não está preparada para estes veículos exóticos. Aliás nem para peões, tal a quantidade de lixo que continua a acumular-se nas ruas e transborda dos contentores sem recolha - os autarcas provavelmente passam de carro sem sentir o cheiro ou escorregar na imundice. (Talvez recorrer à meritória iniciativa limparportugal.ning.com?)
Não sendo este um "tema fracturante", os candidatos à Câmara deviam comprometer-se a implantar medidas concretas de favorecimento do uso urbano da bicicleta caso vençam, e a apoiá-las caso percam.
(publicado no JN de 2009/08/27)
Decidi abandonar o uso do automóvel dentro da cidade. Passei a ser cliente frequente dos transportes públicos e, principalmente, da bicicleta. Desde a adolescência que não percorria a cidade em duas rodas. Aos 43 anos, com as subidas e descidas do Porto, seria realista este meio de transporte para a vida normal e não apenas como desporto? É. Mas há algumas dificuldades.
É demasiado perigoso o convívio de bicicletas e automóveis na mesma via. Conhecendo os condutores portugueses, escolho ruas com pouco trânsito, subo para os passeios com o devido respeito pelos peões e prefiro horas de menor movimento, remediando assim a ausência de ciclovias. Há espalhados pela cidade inúmeros sinais de proibição de parar/estacionar mas parecem indicar zonas para aparcamento permanente. Exemplo entre muitos: Rua da Constituição. Ruas largas, que permitiriam facilmente a reserva de faixas para velocípedes, ficam congestionadas com trânsito normal.
Morando no centro, verifico que a cidade "encolheu": em poucos minutos consigo chegar a qualquer lado, com ou sem subidas (benditas mudanças!). As compras mais pesadas do supermercado agora são feitas online para entrega ao domicílio. Falta-me experimentar o tempo de chuva. Como as deslocações são habitualmente curtas, conjugando o metro com a bicicleta (para a qual as carruagens têm lugar previsto) desconfio que vou continuar nesta onda radical. O mais difícil será descobrir estacionamento adequado nos locais de destino, pois a Baixa do Porto não está preparada para estes veículos exóticos. Aliás nem para peões, tal a quantidade de lixo que continua a acumular-se nas ruas e transborda dos contentores sem recolha - os autarcas provavelmente passam de carro sem sentir o cheiro ou escorregar na imundice. (Talvez recorrer à meritória iniciativa limparportugal.ning.com?)
Não sendo este um "tema fracturante", os candidatos à Câmara deviam comprometer-se a implantar medidas concretas de favorecimento do uso urbano da bicicleta caso vençam, e a apoiá-las caso percam.
(publicado no JN de 2009/08/27)